A minha segunda dúvida foi “isto são lamas ou alpacas?”. A primeira dúvida, claro, momentos antes, foi “caramba, onde é que eu estou?“.

Aparentemente eram mesmo lamas. Sei-o porque parece que os lamas têm as orelhas em forma de banana e o focinho mais camelídeo do que os alpacas, que são um bicho mais pequenino e com um rosto que podia ser o de um desenho animado. Aliás, hoje tenho a certeza que eram lamas. Há mais de cinco mil anos que os lamas são usados como animal de carga nas cordilheiras sul-americanas. Os alpacas também o são mas têm outras utilidades e tendem a morrer mais cedo porque a sua carne é bastante apreciada. Nunca provei.

Foi assim que acordei. Dei por mim numa quinta de turismo rural no Alentejo remoto, junto aos acrescentos de Guadiana providenciados pela represa de Alqueva. Para lá da água era Espanha. Na televisão era quase tudo espanhol. A rede telefónica era quase sempre espanhola. A rádio ia variando entre o português, o ruído de sinal fraco e o castelhano, consoante as curvas da estrada. A vista era magnífica. O dia era sábado. E no sábado jogava o Benfica.

Levantei-me e deixei que o sol, a paisagem e os animais me fizessem esquecer que não conseguiria ir à Luz. Ela já estava acordada. Ela era o motivo de tudo aquilo. Fazia anos no dia seguinte e tínhamos decidido passar o fim-de-semana fora, em sossego e em contemplação, entre as riquezas da gastronomia, a bonomia das vistas, o romance da escapadinha e um frio temperado com lareiras e outros aconchegos.

Tomámos o pequeno almoço e fomos ver os animais. Depois fomos a um ancoradouro e todo o pretexto servia para eu enxotar da ideia o hino, os cachecóis e a constituição da equipa. Tirámos fotografias. Fomos ver as vistas do cimo da fortaleza, levámos o cão. Andou à solta. Portou-se bem.

Tirámos mais fotografias e descemos para ir ver menires e cromeleques. Nada me fazia lembrar o jogo – lembro-me de ter pensado “apesar de disposto verticalmente, este pedregulho não me lembra, de todo, o poste de uma baliza”; também recordo de me ter ocorrido que o cromeleque era estranhamente quadrangular, o que agradeci pois, assim, “não me vai lembrar uma bola e não vou pensar no jogo”. Depois pensei que podia ter sido, há milhares de anos, um campo de futebol primitivo e logo tratei de eliminar essa ideia.

Podíamos ir para o lado de Espanha ou procurar adegas da rota dos vinhos e comprar algumas garrafas“, sugeri eu. E fomos. Começámos por Mourão, subimos ao castelo, tirámos fotografias. As ervas do terreiro entre muralhas lembraram-me um relvado e eu pensei “mau, o melhor é ir andando”.

Deviam faltar duas horas para o apito inicial mas eu não queria pensar nisso. De qualquer modo, não ia ao jogo, estava demasiado longe para mudar de ideias, a rádio no carro era espanhola e a rede no telefone também.

Para todos os efeitos, era como se o jogo nem sequer existisse. Uns metros mais adiante, com a senhora do telefone a dizer “na rotunda”, uma tabuleta dizia “Luz”. Foi por aí que fomos. Era uma aldeia. Tirámos fotografias.

 

*Diego Armés é um ferrenho adepto do Benfica, com direito a este número de sócio, que assina esta crónica.