Isto não é um reality show: contra todas as expectativas, todas as sondagens e, possivelmente, contra o bom-senso, Donald Trump é o novo presidente dos Estados Unidos da América. O que significa que, mais minuto menos minuto, batalhões de trabalhadores devem aterrar na fronteira do México para erguer o muro que Trump prometeu construir (e cuja fatura, assegurou, seria passada aos seus vizinhos).

Ou então não. Muito possivelmente não haverá horda alguma de trabalhadores nem muro nenhum: há quem defenda que agora que foi eleito, Trump será um presidente moderado. Há um indicador nesse sentido, dado pelo próprio, no seu discurso de vitória: “Agora está na hora da América sarar as feridas da divisão [provocada pelas eleições]. Temos de nos unir. A todos os republicanos e democratas e independentes deste país, digo que está na hora de nos unirmos como um só povo”.

Se este discurso é sincero e se Trump pretende levá-lo à prática é impossível dizer: o agora presidente oscilou e mudou tantas vezes de opinião que qualquer prognóstico é um ato de fé.

Para já, é certo que Trump terá um poder imenso – que Obama, por exemplo, nunca teve. À Casa Branca, somam-se o Senado e o Congresso, que estão nas mãos dos Republicanos – mas como a relação de Trump com o seu partido é, no mínimo, conflituosa (ao ponto de figuras históricas como John McCain ter anunciado que iria votar em Hillary Clinton), também não é fácil prever o que sairá dali.

A vitória de Trump foi bastante clara: 290 votos no Colégio Eleitoral contra 220 de Hillary, graças a vitórias na Florida e no Ohio, que são parte dos chamados swinging states, estados eternamente divididos, que não costumam ter cor definida à partida. Mas Trump também ganhou nos restantes estados decisivos, como o Wisconsin, o Iowa, a Carolina do Norte ou a Pensilvânia. Trump conseguiu o voto dos brancos com menos formação e conseguiu o voto dos homens. Hillary Clinton angariou o voto dos hispânicos e dos afro-americanos, mas teve menos apoio nestas faixas que o que Obama obteve nas eleições anteriores. No voto feminino, Trump não perdeu para Hillary por margens tão grandes como as expectáveis.

Em geral, as reações à vitória de Trump foram de espanto – excepto no caso da extrema direita europeia, que foi a primeira a fazer-se ouvir e rejubilou. Em Maio, a GQ abordou esta estranha ascensão de extrema-direita que varre o mundo ocidental: podem encontrar esse texto aqui. Já a maior parte dos comentadores não consegue avançar grandes previsões sobre o que será a prática de Donald Trump a partir de 20 de Janeiro, quando for empossado.

Se cumprisse as suas promessas, Trump teria de erguer o famoso muro na fronteira com o México, expulsaria no próprio dia todos os emigrantes ilegais, deportaria os cadastrados, bombardearia o Médio Oriente à tripa forra, tornaria ilegal a deslocalização de empresas americanas (dando cabo da economia mundial e dando cabo dos cofres do estado), etc.

É, no entanto, improvável, que esta empreitada seja levada a cabo – ou pelo menos é pouco sensato admitir para já que tais medidas vão mesmo ser postas em prática. Uma projeção mais sensata e comedida diz-nos que Trump será mais isolacionista tanto em termos de política externa como em termos comerciais; que a nível militar provavelmente se manterá longe de grandes aventuras; que apostará em obras públicas de grandes dimensões; que baixará impostos; e que porá em causa os direitos sociais das minorias.

Mas isto não é a única coisa que importa, porque discursos como o que Trump teve durante toda a campanha, deixam marcas. Trump atacou mexicanos e os muçulmanos em geral, fez comentários desprezíveis e sexistas sobre mulheres, foi desumano quando mencionou a imigração, etc. Quando se elege um discurso racista e misógino está-se a criar uma cisão funda entre aqueles que se revêm no discurso e os que são ofendidos. O discurso de Trump, que opõe fracos a fortes, vencidos a vencedores, não é o discurso de um vencedor. É o discurso de um Hitler.

Mais que a vitória de Trump, o que é preocupante é a legitimação, por todo o mundo ocidental, desse discurso racista, misógino, anti-imigração, anti-direitos das minorias. O que é preocupante nesta vitória é ela seguir-se ao Brexit, à ascensão de Orban, à ascensão fascista na Finlândia e na França. Já para não dizer na Rússia.

Essa, aliás, é a forma correta de terminar, após declararmos a derrota dos valores humanistas do ocidente: dando os parabéns a Putin, indubitavelmente o grande vencedor da noite.