Cameron já fez filmes, mas não é um ator, Cameron canta, mas não é um cantor, Cameron faz rir milhões de seguidores, mas não é um comediante. Ou talvez seja tudo isso e ainda não haja um nome para definir o que ele faz ao certo.

A primeira vez que ouvi falar nele foi no início de 2016, estava eu em Milão para a semana de moda masculina. Como sempre, há algum bulício na entrada para os desfiles, alguns mais do que outros, dependendo da marca ou do designer, mas não deixa de ser habitual algumas dezenas de pessoas à porta dos desfiles.

Quem se aproximava para ver a coleção de outono/inverno da Calvin Klein naquele dia de janeiro, sentiu que alguma coisa diferente estava a acontecer. A rua começava a encher-se, ouviam-se fãs a gritar “Cameron, Cameron”. Olhei para a multidão e havia adolescentes a chorar, lembrei-me de imagens que tinha visto na televisão quando os Beatles eram aguardados. Correu rápido o rumor de que Cameron Diaz iria assistir ao desfile — é normal haver convidados internacionais para estes eventos, como Kanye West ou James Franco. Mas nunca se tinha visto nada assim. Em poucos minutos, as ruas começaram a ficar cortadas, a polícia foi chamada. Quando nos sentávamos para assistir ao desfile, o nome Cameron Dallas era já mencionado por todos, mas ninguém na sala parecia saber quem ele era, exceção, claro, para os anfitriões do evento. As pessoas agarradas aos telemóveis procuravam o nome dele no Instagram e noutras redes sociais e em poucos segundos aquela sala cheia de amantes de moda só tinha olhos para o jovem que entrava e ocupava o seu lugar na primeira fila.

Os telemóveis viraram-se para ele, todos queriam ter uma foto do rapaz com mais de sete milhões de seguidores no Instagram. Eu perguntava-me quem era aquele miúdo, pensei tratar-se de uma coisa local, algum americano que por algum motivo era famoso em Itália. Enviei uma mensagem à minha filha adolescente. “Sabes quem é o Cameron Dallas?”

A resposta rápida cheia de pontos de exclamação fez-me perceber que o fenómeno ultrapassava fronteiras: Cameron era uma figura conhecida no mundo inteiro para uma camada mais jovem e completamente desconhecido para os restantes. Ali, naquele momento, muitos dos convidados para o desfile sentiram- -se velhos. Como se houvesse um mundo à parte do qual não tinham conhecimento. Passado um ano, Cameron tem, só no Instagram, quase 18 milhões de seguidores e a sua popularidade não para de crescer. Há uns meses, foi um dos galardoados no nosso evento GQ Men Of The Year Awards 2016 na categoria Digital Influencer, onde pude conhecê-lo. Desde aí a minha opinião sobre ele mudou radicalmente. Para ser sincero, a minha primeira opinião era bastante preconceituosa, aliás, como costumam ser as opiniões sobre um assunto que não conhecemos. Fiquei surpreendido por virem fãs de Espanha ou de Itália a Lisboa. Isto para não falar dos portugueses que vieram de todo o país para o verem a entrar no nosso evento e que, mesmo a chover, passaram a noite anterior à porta. Também me surpreendeu como ele se preocupava com eles, com os seus seguidores. Durante o jantar fez varias referências aos fãs, insistiu que tinha de ir lá fora para os ver, quis que todos, ou quase todos, ficassem com uma foto dele para recordar o momento.

Eu não percebia a sua fama, pensava que seria por ser bonito, confundi-o com alguém que ficou famoso num reality show, famoso só por ser famoso. Mas Cameron não nasceu de nada disso, Cameron fez-se a ele próprio, esse é logo o seu primeiro mérito. Não vem da gigantesca máquina de fazer estrelas adolescentes como é a Disney, ou de nenhum canal de televisão. Ele não nasceu de nenhum sistema implementado pela indústria. Pensei bastante no motivo deste fenómeno, mas talvez seja mais simples do que parece.

Nós, as gerações mais velhas, estamos habituados a ver um Jô Soares ou um Conan O’Brien a uma determinada hora na televisão, tornamo-nos fãs, faz sentido para nós, vamos conhecendo o seu trabalho, ou vamo-nos tornando fãs de um determinado programa de televisão. Somos animais de hábitos. Se alguém entrar no nosso mundo de um minuto para o outro pensamos: “quem é este desconhecido? Porque raio é ele famoso? O que fez por isso?”.

No fundo, Cameron faz o mesmo do que muitos dos que admiramos, só não tem hora marcada, entra com os seus vídeos curtos e diverte milhões de jovens a qualquer hora do dia e em qualquer canto do planeta, faz parte do dia a dia deles, o telemóvel é a sua estação de televisão para o mundo. Lembro-me de quando via os Monty Python e o meu pai dizia: “não sei como podes achar graça a isto”. Sim, há coisas que nós, mais velhos, não percebemos… Cameron representa o presente, podemos ser preconceituosos e não o perceber, mas, então, estaremos a ser preconceituosos com toda uma geração.

— English Version —

Who is Cameron Dallas?

Cameron does movies but he’s not an actor, Cameron sings but he’s not a singer, Cameron makes millions laugh but he’s not a comedian. Or maybe he is all that but there’s still not a word to define what he actually does.

The first time I heard of him was in early 2016, when I was in Milan for the men’s fashion week. As always, there was some murmur at the entrance of the shows, some more than others, depending on the brand or designer, but it’s normal to have a few dozen people at the door.

Those arriving at Calvin Klein’s fall/winter collection show on that January day felt something different was happening. The street started to crowd up, there were fans shouting “Cameron, Cameron”.

I looked at the crowd and saw teenagers crying and remembered images I saw on TV when The Beatles were expected. The rumour quickly spread that Cameron Diaz was coming to see the show – it’s common to see international guests on these events, like Kanye West or James Franco. But I’d never seen anything like this. In a few minutes the streets were cut, the police was called. When we sat to see the show, the name Cameron Dallas was mentioned by everyone, but nobody in the room seemed to know who he was, except, of course, for the hosts. People were grabbing their phones and searching his name on Instagram and other social media, and in a few seconds that room, filled with fashion lovers, only had eyes for the young man coming in and taking his seat on the front row.

Mobile phones turned to him; everybody wanted a picture of the boy with more than seven million followers on Instagram. I wondered who was this kid, thinking it should be a local thing, some American that was somehow famous in Italy. I sent a text to my teenage daughter, “Do you know who Cameron Dallas is?”

The quick reply filled with exclamation marks made me understand this phenomenon was crossing borders: Cameron was personality known worldwide by a younger generation and completely unknown to the rest of us. In that moment, many of the guests there felt old. As if there was a world apart they had no idea existed.  A year later, Cameron has nearly 18 million followers on his Instagram account only and his popularity keeps growing. A few months ago he was one of the winners at our GQ Men Of The Year Awards 2016 as a Digital Influencer, where I had the chance to meet him.  Since then my opinion of him changed. To be honest, my first impression was rather prejudiced; as opinions often are on subjects we don’t know. I was surprised to see fans coming from Spain and Italy. Not to mention the many Portuguese fans that came from all over the country to see him arriving at our event, spending the previous evening standing there, in the rain. I was also surprised by the way he cares so much about them, his followers. During dinner he mentioned them several times, insisting that he had to go out there to meet them. He wanted them to have a photo of him to remember the occasion.

I didn’t understand his fame, I thought it was due to his looks; I’ve mistaken him for some celebrity out of a reality show, famous just because he was famous. But Cameron didn’t emerge from anything like that, Cameron is a self made man, that’s his first merit. He is not a product of a gigantic teenage celebrity-making machine like Disney, or some TV network. He didn’t emerge from a system established by the industry. I thought a lot about this kind of phenomenon, but maybe this is simpler than it seems.

We, the older generations, are used to see a Jô Soares or a Conan O’Brien at a regular schedule on TV, we become fans, and it makes sense to us. We get to know their work or we become fans of a certain TV show. We are creatures of habits. If someone suddenly bursts into our world we think: “who is this stranger? Why in the hell is he famous? What has he done?”

Deep down, Cameron does the same thing other people we admire do, but he has no scheduled appearance, he goes online with his videos and entertains millions of youngsters at any given time of day and anywhere in the planet, he is part of their daily lives, the mobile phone is his TV network broadcasting to the world.

I remember when I used to watch Monty Python and my dad said: “I don’t understand how you find that funny.” Yes, there are things that we, the older people, don’t understand…Cameron represents the present, we may be prejudiced and not understand that, but then we are being prejudiced about a whole generation.